Um judeu de Israel, um cristão do oriente e um muçulmano da Palestina reunidos ao redor de um chope: a imagem pode parecer ficção, mas trata-se da realidade do Oktoberfest de Taybeh, um vilarejo bíblico milenar situado a uns 30 km ao norte de Jerusalém —

Encravada sobre uma colina rodeada de campos de oliva, a pequena Taybeh é o último local considerado inteiramente cristão dentro dos territórios palestinos ocupados (incluindo a Cisjordânia e a faixa de Gaza). Todos os anos no começo do outono, cerca de quinze mil pessoas do mundo inteiro vão à Taybeh só para participar do festival. No programa tem-se: degustação de cerveja artesanal durante o dia e shows de música à noite, tudo dentro de um ambiente amigável e descontraído. À primeira vista, não é possível diferenciar este Oktoberfest dos outros festivais homônimos espalhados na Alemanha e no resto do mundo.

A emissora de televisão francesa Canal+, na época cobrindo a 12ª edição do evento numa reportagem emocionante, trouxe luz à uma realidade distinta da habitual retratada zona de conflito, na qual a menor das manifestações culturais ganha necessariamente uma dimensão política e/ou polêmica. Para os organizadores, o festival surge como uma resistência pacífica ao conservadorismo religioso e, sobretudo, à ocupação israelense.

Pioneiros da cerveja palestina

A origem deste Oktoberfest se encontra na família Khoury. Vivendo uma vida de refugiados em Massachusetts, nos Estados Unidos, os dois irmãos Nadim e Davd Khoury decidem voltar à Taybeh, sua cidade natal, durante os acordos de paz de Oslo em 1993. Estimulados pelo pai, eles decidem concretizar um projeto que até então era impossível: abrir sua própria cervejaria artesanal na Palestina.

Em 1994, após obterem uma autorização pessoal de Yasser Arafat (presidente da Autoridade Palestina na época), os Khoury investiram mais de 1 milhão de dólares na criação da cervejaria Taybeh, que daria luz à primeira cerveja de mesmo nome no ano seguinte.  Segundo o portal RateBeer, a cervejaria já conta com 12 variedades da bebida.

Hoje em dia, os filhos Canaã e Madis assumiram grande parte do negócio, tornando Madis provavelmente a única mulher produtora de cerveja em todo Oriente Médio. A empresa familiar produz cerca de 600 mil litros de cerveja por ano e atualmente exporta para uma dezena de países do Ocidente.

Uma vez que a publicidade alcóolica é completamente proibida nos territórios ocupados, os Khoury optaram por uma via local, no boca a boca, replicando a célebre fórmula alemã da Oktoberfest para promover sua marca. Para esta família, este festival representa também a chance de atrair os olhos da comunidade internacional para a diáspora dos cristãos no Oriente e as ameaças religiosas que eles enfrentam por lá.

Apesar das diversas dificuldades que eles encontram ao longo do caminho, incluindo a escassez de água para produção de cerveja no meio do deserto, a excessiva taxação do produto pelo governo local, os embates e barreiras religiosas que eles têm que enfrentar todos os dias, os Khoury continuam a prosperar graças ao seus próprios esforços e ao festival de cerveja. Segundo Maria Khoury, a escrivã da família: “num ambiente onde não se sabe jamais o que o amanhã nos reserva, reunir-se neste festival é a única certeza do próprio amanhã”.

*Texto original publicado por Rue89Lyon, de autoria de Vincent Grange. O conteúdo foi traduzido e adaptado para o portal Bom de Beer.