Para que a cerveja como conhecemos existisse, foi necessário que ela passasse pelas mãos de diferentes personagens históricos, inclusive figuras femininas. Uma delas, talvez uma das mais significativas, foi justamente a monja alemã Hildegarda de Bingen, que nasceu no finalzinho do século 11 e dedicou sua vida a descobertas religiosas e naturalistas.

Canonizada pela Igreja Católica em 2010, a Santa é reconhecida até hoje graças aos pensamentos à frente de seu tempo sobre medicina, sociedade, música e botânica, eternizados por meio de seus escritos. Sua importância para a cerveja está justamente na utilização do lúpulo durante a produção da bebida.

Continue com a leitura para saber mais sobre essa personagem, seu legado cervejeiro e outras obras deixadas por ela.

História de Hildegarda de Bingen

Nascida no ano de 1098 no município de Bermersheim vor der Höhe, na Alemanha, Hildegarda de Bingen veio de uma família pobre. Ainda nova, com oito anos, foi destinada à vida eclesiástica, acredita-se que graças às visões espirituais que tinha durante a infância.

Aos 16, fez seus votos como monja da ordem beneditina e foi encaminhada para o Mosteiro de Disibodenberg, onde cumpriria o eremitério. Lá, ficava reclusa às atividades religiosas e trabalhos manuais, muitas vezes, sem poder sair da abadia. 

Nos anos seguintes, Hildegarda desenvolveu estudos sobre religião, música, poesia e naturalismo. Foi somente aos 42 anos que as visões passaram a ser mais frequentes, e ela passou a registrá-las em sua obra literária.

Hildegarda retratada durante uma de suas visões. Foto: Wikicommons/Autor desconhecido.

Ela morreria em 1179, aos 81 anos – uma longevidade totalmente inesperada em uma época onde raramente se passava dos 40 anos. Até hoje, seu legado é utilizado não somente pela Igreja Católica, mas por muitos estudiosos de medicina, música, literatura e, é claro, cervejeiros.

A utilização do lúpulo na cerveja

Durante seu tempo reclusa, Hildegarda estudava as plantas que havia no mosteiro e registrava tudo para finalidades medicinais. Isso fez com que ela desenvolvesse habilidades no diagnóstico e prognóstico de seus companheiros, sempre combinando soluções herbais e espirituais.

Durante os primeiros estudos, documentados em um livro chamado Physica, foi que a clériga mencionou a utilização do lúpulo na cerveja. Segundo ela, após provar o sabor amargo e testar suas propriedades, concluiu que a planta seria de bom proveito, se utilizada para conservar a bebida, e ainda contribuiria para seus sabores e aromas.

Vale lembrar que, à época, muitos mosteiros produziam cervejas para consumo próprio ou para servir aos convidados. A bebida não era nada parecida com o que conhecemos hoje.

Nos anos que se sucederam, o conhecimento de Hildegarda de Bingen foi se espalhando pela Alemanha, sua terra natal. Uma das provas disso é a Lei da Pureza Alemã, decretada em 1516 e vigente até hoje, que determina o lúpulo como um dos ingredientes essenciais para a cerveja.

Até hoje, os lúpulos são um dos itens mais pesquisados e utilizados por cervejeiros. Suas propriedades são essenciais para a conservação da bebida e podem resultar em uma imensa gama de sabores amargos, florais, frutados, picantes, cítricos, entre muitos outros.

Outras obras de Hildegarda de Bingen

Que tal se aprofundar em outros conhecimentos presentes na obra da Santa Hildegarda? Começando com a música, ela deixou cerca de 40 peças instrumentais, que hoje em dia são tocadas por orquestras de todo o mundo.

Confira abaixo uma peça escrita pela monja durante o século 12. A interpretação é do grupo Ensemble Vocatrix, dos Estados Unidos.

Seus estudos e receitas de remédios naturais, por sua vez, foram muito importantes em uma época em que doenças hoje consideradas inofensivas poderiam dizimar populações inteiras. Em um de seus estudos, ela deixou uma lista de alimentos considerados saudáveis, muito antes de existir pesquisas sobre nutrição. 

Uma curiosidade sobre Hildegarda de Bingen é que, de acordo com o neurologista Oliver Sacks, algumas de suas visões e alucinações podem ter sido fruto de crises de enxaqueca. Seus estudos, publicados nos livros Enxaqueca e O Homem Que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu, comparam relatos e desenhos da clériga com os de milhares de pacientes enxaquecosos, e é possível observar muita similaridade.

Uma das obras da Santa Hildegarda que representava a criação revelada a Moisés. Foto: Wikicommons.

Por fim, é preciso reconhecer a tamanha importância que Hildegarda teve e tem para as mulheres, já que viveu em uma época em que havia um apagamento de muitas personagens femininas, e seus ensinamentos perduram até hoje.

Não é nenhum exagero dizer que, se não fosse a existência de Hildegarda de Bingen, não haveria a cerveja como conhecemos hoje. Suas descobertas com relação aos lúpulos foram essenciais para o desenvolvimento da bebida e continuam sendo exploradas quase um milênio depois.

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