Oud Bruin – Uma Senhora Belga

Nascida no século XVII, esta quatrocentona da região de Flandres, no norte da Bélgica, surgiu com um propósito: testar a paciência dos jovens. Por ser uma cerveja de maturação lenta, seu processo de fermentação pode levar semanas, seguido de meses de envelhecimento após seu engarrafamento. Entre confeccioná-la e prová-la, o brinde pode demorar até um ano inteiro. Também conhecido como Flanders Brown Ale em inglês, o estilo Old Bruin – que significa literalmente “velho marrom”, em português – faz parte da família das cervejas de alta fermentação, mas é mais conhecido pelo seu sabor ácido, ligeiramente “azedo”, graças aos processos naturais que esta bebida enfrenta ao longo de sua vida. Contrárias à prima Flanders Red (Flandres Vermelha) que é envelhecida em barris fechados de carvalho, as “velhas marrons” ganham corpo em recipientes abertos. O produto a ser maturado ainda pode sofrer modificações antes de ser engarrafado – como por exemplo a mistura de ingredientes, como ervas e outras bebidas – caracterizando-se como uma cerveja, por vezes, híbrida. De coloração marrom-escura, com uma espuma firme e aroma doce, é possível encontrar uma Old Bruin entre 4% a 8% de álcool (ABV). A bebida harmoniza com queijos mais fortes e é ideal para ser consumida num dia de calor – uma vez que sua acidez garante ainda mais a sensação refrescante. Se pararmos para pensar, realmente vale a pena esperar. Pois como dizia o ditado: idade e experiência valem mais do que a adolescência. Com informações de: Beer Advocate, Destino CervejeiroWikipédia  


Uma cerveja para guardar

Somos privilegiados. Ter nascido no século XX e XXI significa que você pode consumir a sua cerveja favorita durante o ano inteiro. Faça chuva ou faça sol, basta dar um Google para encontrar uma loja mais próxima (ou fazer um delivery com o seu smartphone) e encomendar a sua gelada preferida. No entanto, as coisas nem sempre foram assim.

Conhecida como bière de saison, ou “cerveja da estação”, este estilo de cerveja ganhou este nome por ser produzida única e exclusivamente durante uma época específica do ano na região da Bélgica e norte da França. Em geral, as melhores cervejas eram produzidas no começo do inverno, quando as temperaturas e a luz do sol baixam consideravelmente na Europa, e por meses a fio maturavam em barris de cerveja – sendo consumidas apenas seis meses depois, com muito gosto no calor do verão.

Embora possa soar como uma verdadeira provação ao cervejeiro moderno ter que esperar meio ano para beber a sua bebida favorita, esta longa espera tem um motivo claro e nobre: controle de qualidade. Pelo fato de não existir tecnologia na época para refrigerar um ambiente e manter o controle da temperatura na hora da produção, confeccionar uma cerveja durante o frio do inverno era sinônimo de garantia do produto final. Em outras palavras: a máxima “antes tarde do nunca” era aplicada à risca aqui.

Hoje, graças ao advento da tecnologia, este tipo de cerveja é produzido durante o ano inteiro – mas assim como antigamente, é possível encontrar produtores locais que fermentam a bebida em barris de madeira e a armazenam em garrafas fechadas à rolha de cortiça, tal qual uma bebida saída do século XIX.

Ficou curioso para provar? Um tipo famoso de cerveja da estação é a bière de garde, ou “cerveja de guarda”, produzida no norte da França. Com alta graduação alcoólica, que varia entre 6% e 9% ABV em média, esta Pale Ale encorpada e com amargor presente é ideal para ser consumida num copo estilo pint.

Com informações de: All About Beer, Rate Beer, Revista da Cerveja


Direto dos campos da Bélgica

Você já ouviu falar na cerveja estilo Lambic? Ela faz parte das categorias das cervejas Ales (de alta fermentação) e estão apropriadamente dentro do grupo das bebidas elaboradas com trigo em fermentação espontânea. Mas o que isto significa?

Para os(as) apreciadores de cervejas especiais, as cervejas de trigo trazem geralmente a agradável surpresa do baixo amargor por conta da baixa presença de lúpulo. Sua aparência é um pouco escura, por conta da não-filtração, assim como pode conter alguns resquícios de sedimentos no fundo da garrafa. Igualmente surpreendente é o seu baixo teor alcóolico (cerca de 5%) e o sabor mais ácido da Lambic – o que a torna bem refrescante.

Segundo o portal Cervezas del Mundo, este estilo nasceu e é exclusivo da Bélgica – país notoriamente consolidado por sua tradição cervejeira – há mais de 400 anos. Ainda de acordo o portal mencionado, as Lambic nasceram nos vales próximos à capital Bruxelas, provavelmente na cidade de Leembek, de onde teria sido cunhado oficialmente o seu nome.

Entre outras características únicas, as Lambic levam anos para serem elaboradas, mas são consumidas, em geral, jovens – em até seis meses, na pressão. A partir de seis meses, elas são cunhadas como Lambic envelhecidas. Para serem consumidas em garrafas, é necessário esperar um bocado: por conta de sua fermentação espontânea, as cervejas só são postas em garrafas após terem fermentado por completo.

Entre os diversos tipos de Lambic, as mais frutadas e de estilo gueze são conhecidas pelo seu alto teor de gás. Assim como os espumantes, estas cervejas são engarrafadas com rolhas de cortiça e devem ser servidas em baixas temperaturas, entre 4ºC e 8ºC, ou segundo indicação do fabricante.

Para apreciar melhor a sua Lambic, sirva-a num copo estilo tulipa. Ao abrir, evite chacoalhar a garrafa ou fazer movimentos bruscos, pois poderá perder uma porção considerável da bebida em espuma. Não se esqueça do colarinho!

 

Com informações de: Cervezas del Mundo, Wikihow e Wikipedia


Doppelbock: Uma criação divina?

Deus escreve certo por linhas tortas, isto já é sabido. Mas teria sido Ele o grande mestre cervejeiro, num plano mirabolante e milenar, com o objetivo de criar o estilo de cerveja Doppelbock?

Voltemos ao início desta confabulação etílica: o jejum cristão – proposto no início da Quaresma como o caminho físico e espiritual de reconhecimento aos quarenta dias enfrentados no deserto por Jesus – tornou-se uma das três práticas penitenciais da tradição bíblica, ao lado da oração e da esmola. Seguindo tais valores à risca, o eremita São Francisco de Paula (1416-1507) fundou a Ordem dos Mínimos, desprezando tudo o que fosse efêmero e desnecessariamente acumulativo ao corpo e ao espírito.

Por ser amado pelos pobres e venerado pelos ricos, os monges de S. Francisco de Paula também seguiam as tradições do antigo eremita e jejuavam com certa frequência.

Okay, mas o que isso tem a ver com cerveja?

Ao contrário de Jesus que acabou multiplicando os pães para saciar sua fome e a fome de seu povo, os monges de S. Francisco de Paula da Baviera não manifestavam este poder e se nutriam durante os períodos de proibição de ingestão de comidas sólidas com cerveja. Foram eles que acabaram desenvolvendo um “pão líquido”, como era chamada a bebida fortemente alcóolica e doce – a tal da doppelbock – como uma forma de “comer sem comer”.

Trata-se, pois, de um estilo de cerveja com muita personalidade. Além de toda a história, o alto teor alcóolico (na faixa dos 7% a 10%), a escura coloração (que varia de amarelo queimado a marrom) e o pouco gosto de lúpulo conferiram à doppelbock o santificado nome de Salvator, ou “Salvador” em latim.

Para uma bebida que literalmente ajudou milhares de homens a passarem por um momento difícil de penitência, um brinde à doppelbock – nossa salvadora.


Vienna Lager

No coração da Europa, entre as nações do leste e do oeste europeu, existe um pequeno país chamado Áustria. Ele possui apenas 83 mil quilômetros quadrados, uma área 100 vezes menor do que o nosso Brasil – menor do que, por exemplo, o estado de Santa Catarina. Apesar do seu diminuto tamanho, os austríacos são os terceiros maiores consumidores de cerveja per capta do mundo. Isto representa 104 litros da bebida, por pessoa, por ano. Para se ter uma ideia, mesmo o Brasil sendo o terceiro maior consumidor de cerveja no mundo por conta de sua grande população, o brasileiro bebe, em média, quase a metade do que bebe um austríaco: 68 litros per capta por ano. Não à toa, este ouro fermentado é parte intrínseca da cultura daquele país. Hoje, vamos conhecer um estilo de cerveja lager, nascido neste belo rincão, repleto de lagos, montanhas e – é claro – muita cerveja boa.

Para você que faltou nas aulas anteriores, a cerveja lager é um tipo de cerveja fermentada, cujo processo de fermentação ocorre a baixas temperaturas (entre 5ºC e 14ºC). Isto se deve a uma tradição dos mestres cervejeiros da região da Baviera (na atual Alemanha, região fronteiriça com a Áustria), que armazenavam a cerveja fermentada em cavernas frias durante o período de inverno. O resultado desta pouca temperatura fazia com que a bebida maturasse diferentemente de todas as outras cervejas da época, no caso, as cervejas tipo ale, de alta fermentação. Posteriormente, com o advento da geladeira e das câmeras frigoríficas, a cerveja tipo lager se popularizou no mundo inteiro.

Nos idos de 1840, um mestre cervejeiro austríaco chamado Anton Dreher criou um novo estilo de cerveja lager, combinando uma bebida de carbonatação moderada, leve cremosidade, malte suave e final bastante seco. Originalmente chamada de Lager de Schwechat (Schwechater Lagerbier) – cidade natal de Anton – seu sucesso comercial acabou tirando o nome da pequena cidade ao lado da capital e ganhou o apelido de Lager de Vienna (Wiener Lagerbier).

Por um acaso do destino, esta cerveja de cor âmbar avermelhado e límpida acabou também parando do outro lado do oceano, no México, através de mestres cervejeiros que imigraram para a América no final do século XIX. O aristocrata austríaco-mexicano Santiago Graf é hoje referência histórica como um dos grandes responsáveis por ter trazido este estilo ao Novo Mundo. (Na época, a América era a terra da oportunidade e dos novos negócios para os ricos europeus).

Hoje, apesar do nome se manter o mesmo, é mais fácil encontrar uma Vienna Lager nos Estados Unidos e no México do que na própria Áustria. Segundo o portal Beer Judge Certification Program, “as versões americanas tendem a ser mais fortes, secas e amargas, enquanto as versões europeias tendem a ser mais doces”.

Para os consumidores mais técnicos, a Vienna Lager possui uma densidade original entre 1,046 e 1,052; ficando entre 18 e 30 nas unidades internacionais de amargor, com um volume médio de 4,5% a 5,5% de álcool por volume.

Aos nossos amigos austríacos: um brinde. Aos nossos companheiros mexicanos: salud!

Com informações de: Cervejas Artesanais do Brasil, Geografia Opinativa, e Wikipédia


Direto das Índias Orientais

Verdade seja dita: quando se trata de cerveja, é possível ir sempre mais longe. Mas hoje, ao invés de fazermos uma gigantesca digressão ao passado, passado pelos sumérios, fenícios e outros tantos povos mesopotâmicos que cunharam o início da civilização como a conhecemos hoje, passemos direto ao que interessa: cerveja.

O nosso barco sai da Inglaterra, no apogeu do gigantesco Império Britânico do século 18, cuja extensão o permitia ser chamado de “império onde o sol nunca se põe”. Das Índias ocidentais (atual Caribe) às Índias orientais (países que compõem hoje a Ásia Meridional e o sudeste asiático), os colonizadores europeus fincavam sua bandeira e chamavam de “casa” onde quer que marcassem força e presença. Mas ao olharem bem para a paisagem ao redor e sentirem um calor que nunca haviam presenciado na vida, uma coisa ainda faltava para chamar aquela terra subjugada verdadeiramente de “lar”. Acertou se você pensou de novo: cerveja.

Segundo os fatos e rumores da História, lordes ingleses encomendavam litros e litros da bebida mais apreciada pelos britânicos para se refrescarem nos trópicos. Mas uma viagem tão longa como esta, atravessando continentes em porões de barcos abafados, pedia uma combinação forte de sabor e – sobretudo – resistência. Por este motivo, as Indian pale ale são conhecidas pelo seu alto teor de lúpulo, cujas propriedades naturais conservantes e bactericidas da planta impediam com que o ouro líquido estragasse no meio do mar.

Outra característica marcante das Indian pale ale, mas não necessariamente obrigatório, é o seu sabor frutado por conta dos cereais e ésteres ali postos. Num processo de fermentação em temperatura elevada (entre 15ºC e 24ºC), a levedura tende a subir à superfície antes completar o ciclo todo.

Fato é: a cerveja nasceu mesmo na Inglaterra, mas fora levada com muito cuidado para todos os rincões do mundo. Hoje, uma série gigantesca de variedades desta bebida está presente no mercado mundial, notadamente a English pale ale (a “original”), a American pale ale (versão americana, com lúpulo americano) e a Imperial pale ale (com maior teor alcoólico e – pasmem! – ainda mais carregada no lúpulo).

Desejo, necessidade ou vontade? As Indian pale ale são a prova de que gosto não se discute e que para alcançarmos aquilo que tanto desejamos, nós movemos mundos e fundos para apreciarmos o melhor que a vida pode nos oferecer. Pois, verdade seja novamente dita: quando se trata de cerveja, é possível ir sempre mais longe.
Com informações de: Beerlife, Mestre Cervejeiro, Lupulinas e Wikipédia


VAI UMA KELLERBIER AÍ?

O mundo das cervejas lager é extenso e variado. Hoje, vamos conhecer um pouco mais sobre a Kellerbier, um subtipo pouco conhecido, mas muito apreciado no mundo cervejeiro.

Oriunda da Alemanha, mais precisamente na região da Francônia, a Kellerbier é um tipo de bebida não filtrada e não pasteurizada – o que remonta processos de confecção alcoólica da Idade Média. O sabor amargo do lúpulo contrasta com o fermento presente e o gás natural deste tipo de cerveja.

Em geral, as Kellerbiers são produções artesanais e servidas localmente. Para o consumo imediato, elas são armazenadas em toneis de madeira que mantêm as propriedades originais da bebida e garantem o frescor do produto ao consumidor final. No caso das engarrafadas, os mesmos toneis são também utilizados para amadurecer a cerveja – se esta for a proposta do produtor local.

Sua aparência opaca é fruto desta ausência de filtragem e da baixa carbonatação, e o seu nome advém justamente da origem de sua produção: Keller, que em alemão significa “adega” (ou cave), onde Kellerbier é a “cerveja de adega”.

Segundo a tradição alemã, deve-se servir uma boa Kellerbier em uma caneca escura de cerâmica – isto porque, antigamente, era de interesse do produtor esconder o aspecto turvo da bebida. Hoje, beber uma boa Keller num Krug (como é chamado este tipo de caneca em alemão) é motivo de orgulho e satisfação.

Com informações de: Dr. Beer,  Cervejas do Mundo e German Beer Institute


Cerveja de trigo: do solo ao copo

Para você que está acompanhando durante esta semana a nossa viagem pelo maravilhoso mundo das Weissbier, ou cerveja de trigo, e resolveu experimentar uma, aqui vão algumas dicas que podem otimizar a sua experiência como um todo. Tome nota:

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Uma Jarda Líquida

Nas últimas semanas, vimos alguns padrões dos copos de cerveja, cada qual ideal para um tipo de bebida. Hoje, a lição de casa envolve uma digressão histórica. Venha conosco.

Vamos ligar a nossa máquina do tempo e viajar pelas dimensões do espaço, rumo à Inglaterra do século XII. Estamos por volta do ano 1100, invisíveis, ao lado do trono do rei Henrique I. Testemunhamos, em primeira mão, ele medir a distância entre seu nariz e o polegar de seu braço estendido e promulgar: “eis aqui uma jarda, a medida oficial”.

Corta.

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